Conto - Criatividade


  Sem mais nem menos, ela o puxou pelo braço, tirando-o de seu serviço na locadora de filmes e o levou até uma mesa de um café na esquina.
  – Precisamos terminar.
  – O quê? Por quê?
  – Não estou satisfeita, sei lá, não quero mais continuar com isso...
  – Sara, porque isso agora? Tem que ter um motivo.
  Só então ela reparou onde estavam. Era um café à moda parisiense, com os toldos, as mesas quadradas e as cadeiras frágeis. Estavam sentados um de frente para o outro e ele fazia uma cara perplexa, querendo uma explicação.
  – Ah, a gente já namora há quanto tempo? Dois meses?
  – Três meses.
  – Então, três meses, e é tudo sempre tão igual... O que a gente fez de diferente desde aquele dia no boliche?
  – Bom, não muita coisa, mas pelo menos eu lembro quanto tempo estamos namorando.
  – Não, Murilo, isso não conta. Se tivessem sido apenas dois meses acho que teria sido até melhor.
  Mesmo não sendo essa a intenção de Sara, aquela frase machucou Murilo. “O que isso quer dizer? Sou um péssimo namorado? Devia ter feito alguma coisa?” Todas essas questões passaram por sua cabeça em menos de dois segundos, até que ele falou:
  – E o que você quer fazer então? A gente vai no cinema quase todo final de semana. Isso não é o bastante?
  – Não. Isso não é nada, Murilo. Isso é banal.
  – Eu trabalho em uma locadora, não tenho o melhor salário do mundo.
  – Não precisa ser algo relacionado a dinheiro. Você poderia usar melhor a sua criatividade.
  – Certo, você acha que eu não sou criativo, é isso?
  Murilo levantou de sua cadeira e entrou no café. Voltou dois minutos depois com uma torta cremosa de limão toda enfeitada, daquelas que já são vendidas prontas.
  – Pra que é isso, Murilo? Você não me entende mesmo né. Não quero uma demonstração de criatividade instantânea, quero que você comece...
  E Murilo deu com a torta na cara de Sara.
  Aquela cena chamou a atenção de todos no café e, quando Sara finalmente tirou o que sobrou da torta de seu rosto, ela estava sorrindo.
  Depois disso eles fizeram uma pequena guerra de comida, sujaram algumas pessoas próximas que olharam de modo repressivo e então se afastaram, Murilo voltou para o trabalho todo coberto de creme e cheirando à limão, Sara voltou a ter a felicidade que provara quando Murilo a pediu em namoro, no boliche; e, é claro, eles continuaram namorando.
  Quatro meses depois, Sara puxou Murilo, pelo braço, para fora da locadora e teve a mesma conversa com ele.

***

Nota 1: Quem quiser pegar o texto para uso geral, sinta-se à vontade; apenas me comunique antes e credite ao autor (Arthur Dias) e ao blog (DiscoDiVinil).

Nota 2: Finjam todos que são grandes críticos de literatura e tentem me orientar: critiquem, sugiram mudanças, apontem meus erros e comentem o que acharam do texto.

Nota 3: Esse conto faz parte do projeto "Semana de Mini Contos". Saiba mais sobre o projeto clicando aqui.

15 comentários :

  1. Andei meio sumida por aqui,mas agora estou de volta.
    Parabéns pelos contos,eles estão maravilhosos.

    www.fonte-da-leitura.blogspot.com

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  2. Hahahaha! Adorei, ô guriazinha chata, hein? Meu Deus, hehe.
    Seus contos estão incríveis, mal posso esperar pelo de hoje :)
    Esses finais súbitos, em que a história tem uma reviravolta estão deixando tudo tão interessante, combinam super bem com o tamanho dos textos.
    Só elogios pra você!
    Beijão,
    Alice.

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  3. ADOREI!
    Pior é que me identifique demais - Fernando é um consorte sofredor -
    Pensando em testar isso por aqui!

    Ana P.M. ♛ Queen Reader - Venha conhecer o Castelo!
    http://booksandcrowns.blogspot.com.br/

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  4. Giovana, não faz mal, eu andei sumido por aqui também... Haha. Obrigado pelos elogios. (:

    Alice, muito obrigado por gostar dos contos e por comentar em todos eles, deixando uma opinião sincera e embasada em todos. Te agradeço muito mesmo.
    Esse efeito de o final dar uma guinada no texto combinam mesmo com esses mini contos, a vontade é de ler mais depressa e chegar logo no final, onde tudo pode ser qualquer coisa e qualquer coisa pode ser coisa alguma.

    Grande abraço às duas!

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  5. As Mulheres!!!!
    Mas vamos combinar que a criatividade dele foi meio grotesca, mas se ela gostou né, fazer o quê? hahahhaha
    Rii aqui. Gostei, me divertiu e achei diferente ;)
    Parabéns Arthur, cada vez os contos estão melhores ainda.
    Beijos;
    http://aculpaedosleitores.blogspot.com.br/

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  6. Hahaha, já que ela gostou está tudo bem... xD
    Obrigado pelos elogios, Taty. Grande abraço!

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  7. Adorei o conto! O final foi super engraçadinho, Sara me pareceu uma pessoa de temperamento forte e impulsivo, gostei mesmo :)
    http://livroscomchadastres.blogspot.com.br

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  8. Que bom que gostou, Gabi!
    Grande abraço! :D

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  9. Oii
    Gostei bastante do conto e fiquei até curiosa para saber mais! haha Achei o conto bem leve e interessante e acho que você tem que continuar escrevendo, cada vez mais! :)

    Até mais,
    http://pitadadecultura.blogspot.com.br/

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  10. Fico feliz que tenha gostado, Gabriela!
    Pode deixar que, se depender de mim, esse blog vai ficar repleto de contos. (:
    Grande abraço!

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  11. Oi Arthur! Desculpa não ter vindo aqui antes mas esses últimos dias eu estava realmente sem tempo!
    Primeira coisa que tenho que falar: eu amo torta de limão e babei só de olhar a foto ali em cima AHUAHAUHAU
    Gostei bastante do conto, e concordo com a Sara (um nome que eu adoro por sinal), muitas pessoas não tem criatividade na hora de ter um relacionamento e isso acaba prejudicando muito a relação, adorei a atitude que ela teve de confrontar o namorado a respeito disso :)

    Beijos
    Débora - Clube das 6
    http://www.clubedas6.com.br

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  12. Minha primeira reação foi ficar de boca aberta, em seguida altas gargalhadas!
    A simples, prática e surpreendente resolução de tudo, uma torta na cara, ótimo!
    Muito bom, adorei!
    Beijos
    Dri,
    http://livrosleituraseleitores.blogspot.com.br/

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  13. Tadinho do Murilo. Sempre precisa de um puxão de orelha de tempos em tempos? Outro mini conto muito bom!

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. HAHA tá de parabéns mais uma vez Arthur!
    Seus contos retratam tão bem o cotidiano, de uma forma tão simples, que ao ler, a pessoa sorri como a Sara! Comigo, pelo menos, aconteceu isso.
    AMEI! Apesar de ser curtinho, o conto te prende e te faz querer saber o que mais vem por aí :D
    Volta a postar vai!

    Beijoos!

    http://quantaaudacia.blogspot.com.br/

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